Esta é uma temática muito complexa e que merece ser analisada sob diversos prismas. Como já o tenho feito em artigos anteriores que poderão ser consultados neste mesmo espaço, tentarei ser o mais distante possível no meu comentário face às minhas crenças e convicções religiosas.Convém, antes de mais, explicar às pessoas que não existem só e apenas fundamentalistas na religião islâmica, pois em todas as religiões, ceitas ou facções religiosas existem casos de extremismo e fundamentalismo religioso.
Encontrar a fronteira entre o fanatismo e a espiritualidade é uma tarefa de difícil execução visto que esta fronteira apresenta-se, na maioria das vezes, de uma forma ténue e imperceptível. Contudo, alguns factores potenciadores deste tipo de condutas poderão ser identificados e analisados em conjugação com o meio social, económico e cultural de quem as manifesta.
A inacessibilidade à cultura, a falta de liberdade de expressão e de culto, a existência de situações económicas e sociais de grande carência e deficiência, poderão ser disposições potenciadoras de desvios comportamentais e acções irreflectidas face a situações de desespero. Face a estas circunstâncias, conciliadas ou não, existe, infelizmente, por parte de instituições e líderes religiosos um grande aproveitamento político. Exemplos não faltam.
Quando vemos, por exemplo, a forma como um menino afegão (mas que poderia ser de qualquer outro país) aprende inglês - repetindo sistematicamente “Os americanos são maus. Morte aos infiéis!” – facilmente nos apercebemos que se trata de uma lavagem cerebral por parte de quem tem a responsabilidade de promover correctamente os princípios religiosos da tolerância e da paz. Mas tal não acontece. Face à sua ingenuidade, as pessoas, na sua grande maioria jovens e idosos, são manipuladas por quem utiliza as filosofias religiosas e as suas escrituras de forma leviana e com interesses bem identificados. Mas o mesmo exemplo poderia ser disposto de forma inversa.
Poderíamos também falar do uso do preservativo, problemática na qual Igreja é claramente contra. Todavia, a Igreja não tem que ser contra nem a favor, pois a sua função não é essa. Primeiro porque promove o celibato, no qual o clero é o seu exemplo mais extremo, ao contrário de outras religiões como o protestantismo; segundo porque o seu uso não é uma questão religiosa, mas uma questão de saúde pública.
Na verdade, política e religião podem ser facilmente e erroneamente confundidas, depende sempre da forma e da intenção com que a mensagem é transmitida, ao público a quem se dirige e ao seu impacto.
Contudo, os Estados não estão isentos de culpa nesta problemática. Não podemos ter Estados que se autoproclamam de “Estados Laicos”, mas que ao mesmo tempo não acolhem as diferentes religiões em pé de igualdade. Veja-se, por exemplo, nesta altura de crise económica e em que se pede grandes sacrifícios às populações, a forma luxuosa com que Papa é recebido e exibe as suas pomposas indumentárias. É imoral, desigual e desnecessário. As instituições religiosas não se podem continuar a comportar como empresas, nem os seus líderes se devem apresentar como agentes políticos, pois na verdade não o são.
Seja qual for a filosofia religiosa seguida, a espiritualidade é, na sua essência, um acto de fé, de humanidade, de respeito e tolerância pelo próximo e não um acto de perseguição e xenofobia doentio.
Na verdade, esta fronteira pressupõe um desafio extraordinário para as actuais e futuras gerações e a sua resolução não será fácil. Urge assim uma maior consciencialização por parte de quem tem a responsabilidade de orientar e apoiar espiritualmente as populações, não caindo em erros fáceis que promovem as segregações religiosas e culturais.
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