
Portugal encontra-se hoje numa posição económica e financeira muito delicada, talvez uma das mais graves desde a sua adesão à União Europeia.
A nível interno assistimos, durante largos anos, a erros contínuos e profundos na gestão dos bens públicos. A irresponsabilidade dos agentes políticos e dos gestores de empresas públicas, ou financiadas através do erário público, contribuíram certamente para o agravamento do problema. Combater a promiscuidade e a corrupção nos organismos e cargos públicos deverá ser uma das prioridades para a credibilização da classe política, mas também da própria sociedade que se habituou, de uma forma errada, a olhar os representantes e titulares destes cargos como corruptos e aproveitadores. Promover a transparência, o profissionalismo e a respeitabilidade dos agentes políticos e dos titulares de cargos públicos é combater a perpetuação de mandatos (como, de resto, sucede nos governos regionais, nas autarquias e nas empresas financiadas com dinheiros públicos) e os exageros com salários, despesas de representação e de serviço. Se somos um país pobre não podemos gastar como ricos…
Os problemas de Portugal, assim como dos restantes países da União atualmente em crise, são estruturais e macroestruturais, visto que têm origem em problemas internos, mas que na sua generalidade ultrapassam, em parte, a realidade nacional. O que é importante é que exista critério e consciência à hora de estabelecer medidas e prioridades que afetem a vida, o trabalho e o acesso às liberdades coletivas e individuais dos cidadãos. Ao Estado cabe-lhe regular, regulamentar e dar o exemplo.
Os bancos também têm “culpas no cartório”. Durante anos a fio disseram às pessoas que podiam gastar mais do que aquilo que tinham possibilidades. Incentivou-se o crédito para o essencial e para o supérfluo. Para além do crédito habitação, estimulou-se o crédito automóvel, o crédito para os móveis e eletrodomésticos, para as férias, para a compra da mercearia, para os livros escolares, para os estudos, para pagar outros créditos… Mas o problema é que “ninguém dá nada a ninguém” e “tudo, mais cedo ou mais tarde, se paga”…
Se passarmos para outro patamar, o Europeu, também vemos “culpados”… A União Europeia é tudo menos uma União. Vemos uma Europa a dois – França e Alemanha – e uma Europa do “tapa buracos”. França e Alemanha reúnem-se e decidem bilateralmente o futuro dos restantes membros que, bem comportados, trabalham desesperadamente para agradar à senhora Merkel e ao senhor Sarkozy tapando os buracos económico-financeiros dos seus países.
Desculpem-me mas, para mim, esta não é a União Europeia que nos prometeram… Onde está a voz dos diferentes Estados? Onde está o esforço para encontrar soluções conjuntas? Onde está a vontade de superar as diferenças e trabalhar para a convergência? Não podemos ser europeus só para aquilo que nos interessa…
Para além disso, o caso da Alemanha é um caso caricato… De “eixo do mal” passou, em pouco mais de 60 anos, a “salvadora da Europa”… Quando se fala em pagamento de dívidas e no cumprimento de responsabilidades, deveriam perguntar à Alemanha como foram feitas as compensações aos países vítimas da 1ª e 2ª Guerra Mundial, mas também sob que modelo se desenvolveu a economia alemã desde essa época…Decididamente o problema não está no Euro, mas sim na Europa. Como países independentes e soberanos França e Alemanha podem e devem encontrar-se para falarem sobre o que quiserem, o que não podem é decidir bilateralmente pelos restantes Estados Membros. A Europa não pode, nem deve, falar a duas vozes. Existem organismos e hierarquias próprias dentro da estrutura da União Europeia que devem de ser respeitadas e ouvidas. Os Estados Membros devem de ser ouvidos como iguais e não com pesos diferenciados, mesmo que economicamente sejam mais frágeis. Se a União Europeia não respeita os seus próprios Estados Membros, como poderemos exigir que o mercado especulador os respeite?
Resta-nos fazer a nossa parte e lutar para que a União Europeia e os seus dirigentes políticos façam a sua.